Entrou no supermercado apressada. Sem uma lista em mãos, certeza de compras supérfluas. Tudo bem, era Páscoa mesmo. Colocava os produtos no carrinho sem olhar preços. Em pouco tempo não tinha mais espaço.
Foi logo para a fila antes que comprasse mais besteiras. Nesse momento sentiu alguém cutucar seu ombro. Virou o rosto para trás, era um menino de rua, com um pacote de biscoito na mão e um iogurte na outra.
- Tia, compra pra mim ?
A princípio assustou-se. Então lembrou-se que estava em um supermercado. Tranquilizada, pegou os produtos da mão do menino.
- Pode deixar filho. Eu pago pra você.
Já estava aliviada, quando foi interpelada pelo segurança da loja.
- Senhora, desculpe incomodá-la. Mas não deverias ajudar esse garoto. Todo dia ele está aqui e é por atitudes como a sua que ele sempre volta.
Encarou-o com seriedade, mas também ternura :
- Meu querido. Entendo o seu julgamento. E tenho plena consciência de que a minha atitude não resolverá o problema da juventude abandonada. Nem tenho essa pretensão. Tampouco pense você que a minha atitude é meramente filantrópica. É claro que a fome deixa-me com o coração partido. Mas enxergue na minha atitude também um instinto de sobrevivência. Concordarás comigo neste ponto. Se algum dia este jovem vier a assaltar alguém, tenha certeza que não serei eu a contemplada. Portanto, é melhor eu matar a fome aqui dentro do que a fome me matar lá fora.
quinta-feira, 28 de abril de 2011
terça-feira, 19 de abril de 2011
Cibele Dorsa
Ele bebia e se drogava como o fazem aquelas pessoas que insistem em fazer de tudo para nos deixar, quando nós, se pudéssemos, moveríamos mundos e fundos para não perdê-las.
Sim, porque este é o objetivo: prover uma carga tão grande de tristeza e culpabilidade que, quando conseguem, levam consigo, também, uma parte, quando não um todo, das pessoas que o amavam.
E se você não tem uma base religiosa forte, uma força moral e filosófica edificante, viver torna-se algo angustiante e sem fim.
Pior que a perda, o remorso. Antes a dor, do que a angústia e o arrependimento de achar que poderia ter feito mais.
E como é fácil rotular e analisar quando nunca se viveu algo semelhante. Dia após dia olhar as fotos, conviver com as lembranças...
É preciso aprender a conviver com a perda, com a inevitabilidade da morte e, acima de tudo, com as pessoas queridas que insistem em querer apressá-la.
Sim, porque este é o objetivo: prover uma carga tão grande de tristeza e culpabilidade que, quando conseguem, levam consigo, também, uma parte, quando não um todo, das pessoas que o amavam.
E se você não tem uma base religiosa forte, uma força moral e filosófica edificante, viver torna-se algo angustiante e sem fim.
Pior que a perda, o remorso. Antes a dor, do que a angústia e o arrependimento de achar que poderia ter feito mais.
E como é fácil rotular e analisar quando nunca se viveu algo semelhante. Dia após dia olhar as fotos, conviver com as lembranças...
É preciso aprender a conviver com a perda, com a inevitabilidade da morte e, acima de tudo, com as pessoas queridas que insistem em querer apressá-la.
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